A vida é uma merda. Seria hipócrita se dissesse que a vida é linda e cheia de unicórnios e fadas e princesas. Não. A vida é uma merda. E no entanto, a ironia é que a vida também é a melhor coisa que temos. Mesmo que sendo uma merda. E há dias em que eu acordo e penso "A minha vida é uma merda tal, que nem sequer me vou levantar para a enfrentar." E não me levanto... Voltar a dormir é a melhor forma de nem sequer se pensar na merda que é a vida. E nem sequer me ocorre que, além de perder a merda que aquele dia poderia ser, também perco um dia da minha vida, que no fundo é o melhor que tenho.
Não gosto de me gabar. Pelo contrário. Ultimamente até me apercebi que sempre me rebaixei mais do que aquilo que devia. Sempre achei que a minha vida era uma merda maior que a vida dos outros. Admito: sou uma criança. Pelo menos tenho a inocência de uma. Tenho tentado consciencializar-me que crescer é significado de acordar para a vida. De perceber o que me passa mesmo ao lado... Mas apesar de perceber tudo isso, não o faço. Por razão nenhuma. Apenas tapo os meus ouvidos e grito em voz alta para mim mesma "A minha vida é uma merda." E pronto... Faço a birra de uma criança de 3 anos que quer o chupa chupa que está a venda ao pé da caixa do supermercado.
Hoje não me vou rebaixar, ou vitimizar, ou dizer que a vida é uma merda (apesar de o ser, efetivamente). Às vezes não sei se acredito em Deus ou não. Acho que isto é porque vivemos tão cegos, que não nos apercebemos que a vida não é feita de ajoelhar-se à noite e rezar três pais-nossos à espera que no dia seguinte os nossos desejos sejam realizados. Vivemos numa constante busca de alguma coisa que nos faça sentir alguma coisa. E o que acontece é que sentimos. Sentimos raiva e revolta, porque nunca estamos bem. Por muito felizes que nos sintamos num segundo, no segundo seguinte já estamos a sentir-nos mal, porque pensamos naquele dia, naquele momento, naquela pessoa, naquele lugar... Num segundo afirmamos com toda a segurança que estamos felizes e que nada nos pode mudar a felicidade, e no segundo seguinte já estamos novamente a lembrar-nos de como a nossa vida é uma merda, e de como somos infelizes, e de como nada do que nós queremos se realiza, e de como já sofremos, e de como e de como e de como... É sempre esse segundo seguinte que nos pega num bocadinho de cérebro e ata um nó tão perfeito, que acabamos por ficar sem saber como desamarrá-lo sem o destruir por completo... Então... Porque não parar no segundo anterior? Hoje parei. Hoje lembrei-me não de como sou infeliz, não de como tenho azar, não de como a minha vida corre mal. Hoje lembrei-me que tenho uma vida pela frente para ser feliz, para ter sorte, para construir uma vida. Não o devo a mim. Devo-o a esta mesma vida. Que me tira com uma mão, mas me dá com a outra. Ou se calhar sempre me deu... E eu, egoísta como o ser humano deve ser, nunca pensei tanto nisto. Hoje fiz um brinde. Às pessoas. Às minhas pessoas. Àquelas que, mesmo na sombra, nunca deixaram de me dar a mão. Às que me dão o colo para eu chorar, às que me ouvem quando só digo porcaria, às que simplesmente me calam com os olhos, porque não é preciso dizer-se mais nada. Às gargalhadas, às conversas, aos momentos em que percebo que a minha vida é fantástica. Aos momentos em que percebo que tenho os melhores. Aos momentos em que pensei que a vida é uma merda, para poder valorizar os de agora. Obrigada. Pelas surpresas, pelo mimo, pelos sermões e missas cantadas, pelos conselhos, por tudo o que agora nem sei escrever. Um brinde à vida, que é a melhor merda que se pode ter. A nós, a todos como nós, e o resto que se foda.
domingo, 3 de maio de 2015
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Quando dou por mim...
Sou assim, imperfeita. Acredita naquilo que te digo. Mentiria se dissesse o contrário. Sou assim, imperfeita. Corro atrás do que me faz rir às gargalhadas, ainda que possa ser a circunstância mais ridícula que já viste. Choro. Choro muito, quando (tudo) me magoa. E tudo me magoa. E tudo me faz rir às gargalhadas. Tenho dois extremos gigantescos. Porque sou imperfeita. Não vivo pelo meio-termo. Ou sim, ou não. Ou tudo, ou nada. Quero morrer um dia com a consciência de que disse tudo o que sentia, de que vivi tudo o que queria. Ou então com o peso de não o ter feito, porque não. Sem razão aparente. Apenas porque não.
Não gosto de te dar explicações por sentir coisas... Sinto as coisas, e pronto. Não me peças que te explique. E tenho de to dizer quando sinto. Quando quero. E não compreendes o porquê de não te querer compreender. De não compreender o porquê de não me compreenderes. Compreendes isto? Não... Claro que não... Não me sei expressar de melhor forma... Perdoa-me por isso. Tenho-te escrito na pele. A caneta de tinta permanente. Só queria que me tivesses a mim também. Mas isto é porque sou imperfeita. E porque não sou como tantas e tantas outras pessoas que vejo passar na rua. Monocórdicas na voz e no coração. Sem mudança de expressão. Lívidas de uma forma que transparecem tudo o que sentem. Que é nada. Não sentem nada, a não ser conforto por terem, ou revolta por não terem. Mais nada além disso. Não sei ser assim. Nunca me ensinaram. Eu sinto. E ainda que não sinta, imploro por sentir. Porque me sinto viva, além de morrer por dentro. Mas isso é, talvez, porque sou assim, imperfeita.
E a cada palavra que escrevo as minhas mãos tremem. Porque não quero falar. Não quero dizer... Mas preciso. Quero fazê-lo. Quero e não quero. Já não sei bem... Sei que te quero. Só isso. Sei que te quero. Mas sou imperfeita demais para to dizer, tantas vezes... Talvez até para to mostrar. Sinto uma turba dentro da minha cabeça. O meu cérebro é espezinhado a cada segundo por centenas de mini pessoas ou coisas que correm em tumulto para me darem ordens. E tantas vezes não sei quais devo ouvir. É porque sou assim, imperfeita. Perdoa-me por isso também. Preciso de ti. Preciso que me envolvas nesse abraço eternamente. Preciso que faças de mim parte de ti. Preciso que me escrevas. A tinta permanente também, como eu te escrevi. Sabendo que sou assim, imperfeita. Preciso que sejas o motivo. O meu motivo. Perdoa-me por te dar este cargo, mas é porque o és. És o meu motivo, e preciso que o sejas, sempre. Fica comigo. Dorme ao meu lado, e acorda ao meu lado. Enche-me de ti, todos os dias. Enche-me de ti. Sufoca-me de ti. Amo-te.
Não gosto de te dar explicações por sentir coisas... Sinto as coisas, e pronto. Não me peças que te explique. E tenho de to dizer quando sinto. Quando quero. E não compreendes o porquê de não te querer compreender. De não compreender o porquê de não me compreenderes. Compreendes isto? Não... Claro que não... Não me sei expressar de melhor forma... Perdoa-me por isso. Tenho-te escrito na pele. A caneta de tinta permanente. Só queria que me tivesses a mim também. Mas isto é porque sou imperfeita. E porque não sou como tantas e tantas outras pessoas que vejo passar na rua. Monocórdicas na voz e no coração. Sem mudança de expressão. Lívidas de uma forma que transparecem tudo o que sentem. Que é nada. Não sentem nada, a não ser conforto por terem, ou revolta por não terem. Mais nada além disso. Não sei ser assim. Nunca me ensinaram. Eu sinto. E ainda que não sinta, imploro por sentir. Porque me sinto viva, além de morrer por dentro. Mas isso é, talvez, porque sou assim, imperfeita.
E a cada palavra que escrevo as minhas mãos tremem. Porque não quero falar. Não quero dizer... Mas preciso. Quero fazê-lo. Quero e não quero. Já não sei bem... Sei que te quero. Só isso. Sei que te quero. Mas sou imperfeita demais para to dizer, tantas vezes... Talvez até para to mostrar. Sinto uma turba dentro da minha cabeça. O meu cérebro é espezinhado a cada segundo por centenas de mini pessoas ou coisas que correm em tumulto para me darem ordens. E tantas vezes não sei quais devo ouvir. É porque sou assim, imperfeita. Perdoa-me por isso também. Preciso de ti. Preciso que me envolvas nesse abraço eternamente. Preciso que faças de mim parte de ti. Preciso que me escrevas. A tinta permanente também, como eu te escrevi. Sabendo que sou assim, imperfeita. Preciso que sejas o motivo. O meu motivo. Perdoa-me por te dar este cargo, mas é porque o és. És o meu motivo, e preciso que o sejas, sempre. Fica comigo. Dorme ao meu lado, e acorda ao meu lado. Enche-me de ti, todos os dias. Enche-me de ti. Sufoca-me de ti. Amo-te.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Rasga-me
Pega-me como um pedaço de papel e rasga-me. Escreve em mim e depois rasga-me. Apaga-me com essa borracha cruel e rasga-me. Desenha-me em ti. Coloca cada pequeno traço do meu rosto, para me lembrares a sorrir e a chorar... Mas depois rasga-me. Não me recortes com uma linha perfeita que descreve uma bela figura. Não me dobres ocultando cada letra que há em mim. Não pegues simplesmente em mim e não me amarrotes, com esse desprezo no olhar de quando algo não vale nada. Rasga-me. Escolhe o sítio perfeito por onde começar, e vai continuando, por ali abaixo, devagar. Ou depressa. Com serenidade ou com toda essa raiva que tens por mim. Rasga-me. Quando me tiveres rasgado como este pequeno pedaço de papel uma vez, rasga-me outra e outra vez. E verás que o pequeno pedaço de papel se transforma em muitos pequenos pedaços de papel moldados por ti. Mais pequenos, mais desalinhados, com bordas feias, mal definidas, de diferentes tamanhos. Mas continua a rasgar-me. E verás que um dia não conseguirás rasgar mais. Os pequenos pedaços de papel vão-se tornando tão pequenos que não consegues rasgá-los mais. Toda eu continuarei aqui, apesar de feita em pequenos pedaços de papel. E tu? O que farás com esses pequenos pedaços de papel impossíveis de rasgar? Deitá-los fora? Ou continuar a guardá-los nessa caixinha inquebrável que tens dentro do peito?..
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Fora de mim
Hoje acordei fora de mim.
Nem mesmo o vento, que eu sabia que batia em mim, pois via o meu cabelo abanar... Nem mesmo esse me batia com força suficiente para que o sentisse...
Palpei o ar a minha volta, mas por incrível, escorregou-me das mãos... Não o senti... E não me senti... E não me sinto.
E o nó na garganta continua a apertar-me de tal forma que quase não me deixa respirar. E o aperto no estômago permanece com tal intensidade que a comida que chega lá quase se sente incomodada, e com vontade de sair. E os olhos continuam com vontade de derramar estas lágrimas amargas que se acumulam cá dentro.
Não posso controlar. É nisto que penso... Não posso controlar a minha própria vida, de forma a que a sinta verdadeiramente minha. Não posso desenhá-la a meu gosto, com as minhas cores favoritas, com um sol radioso e umas flores rosa e vermelhas. Não posso pegar nas rédeas e determinar a velocidade do animal que a leva ao seu destino. Não posso... E no entanto não consigo deixar de o querer... Não consigo deixar de desejar que o que é meu seja só meu. Única e simplesmente, e para sempre. Não consigo deixar de pensar que podia ganhar asas e voar para qualquer sítio que me fizesse ver a realidade, que me fizesse guardar o horizonte que prende tudo aquilo que tenta escapar de mim... Preciso de semi-cerrar os dentes, fechar os punhos e fechar os olhos com muita força. E vencer-me a mim própria... E mostrar-me que não é tudo como eu quero, mas que alguma coisa pode querer que seja de outra forma. E que o que tiver de acontecer, acontecerá. Porque o futuro não tarda. E não há nada mais justo do que ele.
Hoje acordei... E estava fora de mim.
Agora vou dormir. E encontrar-me. Porque não sei como vou acordar amanhã. Talvez acorde fora de mim...
Nem mesmo o vento, que eu sabia que batia em mim, pois via o meu cabelo abanar... Nem mesmo esse me batia com força suficiente para que o sentisse...
Palpei o ar a minha volta, mas por incrível, escorregou-me das mãos... Não o senti... E não me senti... E não me sinto.
E o nó na garganta continua a apertar-me de tal forma que quase não me deixa respirar. E o aperto no estômago permanece com tal intensidade que a comida que chega lá quase se sente incomodada, e com vontade de sair. E os olhos continuam com vontade de derramar estas lágrimas amargas que se acumulam cá dentro.
Não posso controlar. É nisto que penso... Não posso controlar a minha própria vida, de forma a que a sinta verdadeiramente minha. Não posso desenhá-la a meu gosto, com as minhas cores favoritas, com um sol radioso e umas flores rosa e vermelhas. Não posso pegar nas rédeas e determinar a velocidade do animal que a leva ao seu destino. Não posso... E no entanto não consigo deixar de o querer... Não consigo deixar de desejar que o que é meu seja só meu. Única e simplesmente, e para sempre. Não consigo deixar de pensar que podia ganhar asas e voar para qualquer sítio que me fizesse ver a realidade, que me fizesse guardar o horizonte que prende tudo aquilo que tenta escapar de mim... Preciso de semi-cerrar os dentes, fechar os punhos e fechar os olhos com muita força. E vencer-me a mim própria... E mostrar-me que não é tudo como eu quero, mas que alguma coisa pode querer que seja de outra forma. E que o que tiver de acontecer, acontecerá. Porque o futuro não tarda. E não há nada mais justo do que ele.
Hoje acordei... E estava fora de mim.
Agora vou dormir. E encontrar-me. Porque não sei como vou acordar amanhã. Talvez acorde fora de mim...
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Há dias assim
Fecho os olhos na esperança de ver algo mais para além de tudo... Mas não alcanço mais do que o cinzento do céu, as árvores que abanam ao sabor do vento, o comboio a passar apressado com toda a sua carga... Palpo o vazio na esperança de encontrar algo mais do que aquilo que já sei... Mas nada mais sinto, a não ser aquilo que já os meus olhos decoraram há muito tempo... Centro toda a minha atenção, com esperança de ouvir o som de algo que não me pareça familiar... Mas apenas o som das buzinas dos carros, das sirenes das ambulâncias, dos rapazes e raparigas que lá fora riem com vontade... Deito a língua de fora, mas nem um único sabor me aflora... Nem um doce, nem um salgado... Um nada que se revela pelo nada que tenho na boca... Inspiro levemente, ainda na esperança de encontrar aquele aroma que me encherá a alma, e me fará esquecer tudo o resto... Mas o único cheiro é o do amargo de toda uma vida repleta de repetições, de coisas que algum dia já vi, já toquei, já ouvi, já provei e já cheirei... E nada mais me faz colorir todo este cinzento... E a vontade de pegar em tudo o que é meu e jogar pela janela começa a surgir... E só apetece... Só apetece abrir a janela, gritar, atirar coisas ao chão, mostrar ao mundo a nossa revolta... Mas o problema é que ele não vê, não sente, não ouve, não degusta e não cheira... E eu continuo a esventrar-me com raiva de não poder fazer nada para lhe mostrar que ele não pode fazer tudo aquilo que ele quer... Mas faz... Porque ele é o mundo... E porque ele pode... E porque nada mais tem tanto poder como ele... Nós somos um piolho na cabeça dele... E ele faz questão de nos esmagar com as unhas, e deitar-nos pelo cano abaixo... Quando lhe apetece... Só porque sim...
Amanhã é um novo dia.
Tudo vai passar.
Até amanhã.
Amanhã é um novo dia.
Tudo vai passar.
Até amanhã.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Às vezes dói...
Já esmurrei joelhos, dei cabeçadas em portas, cortei-me, e nunca doeu tanto...
Já espetei espinhos, fui mordida por bichos ou atacada por plantas bravas, e nunca doeu tanto...
Já caí, pontapeei pedras, chapei na água e nunca doeu tanto...
Já tirei dentes, torci tornozelos, tive unhas encravadas, e nunca doeu tanto...
Já estive enjoada, vomitei, e nunca doeu tanto...
Já tive enxaquecas, dores de barriga, dores nos músculos, mas nunca doeu tanto...
Como esta dor fininha no coração. Que preenche todos os espaços do meu corpo que não estão já preenchidos por outra coisa qualquer. É uma dor persistente, como se alguém que há algum tempo me espetou um arame no coração, passasse por lá de vez em quando para avivar a ferida. Para evitar que esta cicatrize, e para que eu me lembre que ela está lá. E dói tanto... Dói tanto querer tudo de toda a gente. Dói tanto sentir as coisas de forma tão intensa... Dói ser assim... E o pior é que não sei ser de outro jeito... Simplesmente não sei... Quero tudo. Quero sentir tudo. Quero querer tudo. E quero ser de um jeito que não queira. Quero poder dizer que estou bem, e estar mesmo. E às vezes não posso. E quero poder. Quero que não doa mais. Porque já doeu demais. Quero apenas que passe. Ou que continue, mas que não doa deste jeito. Dói de um jeito...
Já espetei espinhos, fui mordida por bichos ou atacada por plantas bravas, e nunca doeu tanto...
Já caí, pontapeei pedras, chapei na água e nunca doeu tanto...
Já tirei dentes, torci tornozelos, tive unhas encravadas, e nunca doeu tanto...
Já estive enjoada, vomitei, e nunca doeu tanto...
Já tive enxaquecas, dores de barriga, dores nos músculos, mas nunca doeu tanto...
Como esta dor fininha no coração. Que preenche todos os espaços do meu corpo que não estão já preenchidos por outra coisa qualquer. É uma dor persistente, como se alguém que há algum tempo me espetou um arame no coração, passasse por lá de vez em quando para avivar a ferida. Para evitar que esta cicatrize, e para que eu me lembre que ela está lá. E dói tanto... Dói tanto querer tudo de toda a gente. Dói tanto sentir as coisas de forma tão intensa... Dói ser assim... E o pior é que não sei ser de outro jeito... Simplesmente não sei... Quero tudo. Quero sentir tudo. Quero querer tudo. E quero ser de um jeito que não queira. Quero poder dizer que estou bem, e estar mesmo. E às vezes não posso. E quero poder. Quero que não doa mais. Porque já doeu demais. Quero apenas que passe. Ou que continue, mas que não doa deste jeito. Dói de um jeito...
domingo, 1 de junho de 2014
Apetece-me
Apetece-me sair, correr no meio do campo, atirar areia para os olhos, construir castelos de lama e bolos com pozinhos de terra. Apetece-me pintar sem medida, sujar a roupa, fazer bolas de sabão, andar descalça no chão, comer um gelado e lambuzar a cara. Apetece-me aprender a ler, a escrever, aprender as cores, fazer jogos no tapete do infantário. Apetece-me andar de baloiço, brincar com bonecas, despentear as tranças que a minha avó me fez de manhã. Apetece-me fazer birra porque não gosto da sopa, apetece-me dormir a sesta no final de almoço com o meu avô. Apetece-me fazer bem-me-quer com qualquer uma flor que apanho no campo. Apetece-me desenhar a minha casa, um sol gigante no canto da folha, daqueles com boca, uma árvore pequenina e umas flores gigantes, uns pássaros em V e a minha família sorridente e de mão dada. Apetece-me transpirar de tanto brincar, jogar à bola com os rapazes, fazer espantalhos para o Carnaval. Apetece-me vestir aquelas roupas lindas e pequeninas. Apetece-me colo. Apetece-me não saber o que é a vida. Apetece-me olhar à minha volta e tudo me parecer estranho. Apetece-me rir quando choro e chorar de tanto rir. Apetece-me pronunciar mal as palavras e ser corrigida com um sorriso no rosto. Apetece-me não entender quando uma criança é diferente de mim. Apetece-me fazer asneiras e fazer cara de anjinho pra ninguém perceber. Apetece-me atirar-me para os braços de alguém, e desatar aos abraços e aos beijinhos. Apetece-me fazer presentes lindos para o Dia da Mãe e do Pai. Apetece-me não estar a escrever este texto... Porque não sei escrever... Apetece-me voltar. Apetece-me tanto...
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